Histórias de Moradores da Freguesia do Ó

Esta página em parceria com o Museu da Pessoa é dedicada a compartilhar o acervo de vídeos e histórias com depoimentos dos Moradores.


História da Moradora da Freguesia do Ó: Keli Regina de Oliveira
Local: Freguesia do Ó - SP
Ano: 12/08/2014





Vídeo: Preferência pela dança afro



Sinopse

Keli é uma jovem cheia de vida que adora dançar. Em seu depoimento, ela conta como os pais se conheceram, fala sobre sua infância no bairro da Vila Brasilândia e as brincadeiras com o irmão mais próximo de sua idade. Recorda como iniciou seus estudos e os primeiros trabalhos que teve. Com entusiasmo fala sobre os cursos que fez no Espaço Criança Esperança da Brasilândia e a preferência pelos cursos de dança afro. Encerra a entrevista falando de seus sonhos de continuar estudando.

História

Meu nome completo é Keli Regina de Oliveira. Eu nasci dia 18 de junho de 1998, na Freguesia do Ó, aqui em São Paulo. Minha mãe e meu pai são de São Paulo. A minha avó paterna mora aqui em São Paulo e meu avô também. Eles são todos de São Paulo. Os pais da minha mãe também são de São Paulo, só que a mãe da minha mãe é falecida e o pai da minha mãe mora no Paraná. O pai do meu pai, ele não trabalha, ele tem problema nas pernas, anda de cadeira de rodas, não tem metade das pernas por causa de um acidente. O pai da minha mãe também é aposentado, mora no Paraná, é casado com outra mulher e não trabalha. E a mãe do meu pai também é aposentada, não trabalha, ela tem um problema, ela tinha um buraco assim na perna, sofreu um acidente, mas acho que agora ela já está bem melhor, está fechando já.

Meu pai, quando a minha avó levava ele pra escola, quando ele era bem mais novo, ela deixava ele na porta da escola e voltava, quando ela voltava, ele ia lá pra um pé de manga e ficava no pé de manga chupando manga (risos). Eu acho que ele começou a trabalhar aos 14 anos de idade, bem novo. Ele mexia com essas máquinas grandes. Era empresa grande, ele parou de estudar, não terminou os estudos, não concluiu, só que como fechou a firma e foi pra longe, não deu pra ele ficar. Hoje em dia ele é segurança, ele trabalha dentro de um prédio e minha mãe é desempregada. Minha mãe já trabalhou de doméstica. Agora, ela é só dona de casa. Mas ela terminou os estudos agora depois de mais velha. Meu pai era pagodeiro, faz muito tempo, no grupo “24 Horas”, ele fazia parte desse grupo. Aí, eu acho que ele estava no pagode, minha mãe foi e acabou conhecendo ele e eles ficaram juntos.

Eu tenho cinco irmãos homens, sou a única menina, só que três é de um pai e três é do meu. Eu tenho irmão de 17 anos, e eu tenho 16, eu sou um ano e um mês mais nova que ele, depois de um ano e um mês. No momento, estou morando com a minha tia porque eu comecei a cuidar do filho dela, do meu primo porque ela trabalhava, agora ela saiu e eu estou trabalhando, mas mesmo assim, eu continuei trabalhando, mas meus irmãos moram todos juntos, só o mais velho que mora com a mulher dele e com os filhos dele. Meu pai e minha mãe eles se separaram, voltaram e eu tenho um irmão de sete anos que nasceu depois que eles voltaram. Minha mãe morava na Light Ball, acho que era Freguesia do Ó também, aí eles voltaram e a gente foi morar onde meu pai e minha mãe moram, só numa rua de baixo, ali na Estrada do Sabão mesmo, próximo ao Criança Esperança. Morava eu, minha mãe e meus três irmãos que é só por parte de mãe, a gente morava na Light Ball, a casa era bonitinha, mas era de aluguel também, a gente não tem casa própria. E aí, meu pai se juntou com a minha mãe e eles vieram morar aqui na Estrada de Sabão, tinha a casa da minha avó e do lado tinha uma outra casa que era da minha avó também, só que no caso, ela vendeu e aí gente está morando de aluguel novamente.

Eu brincava de esconde-esconde na minha casa, e a minha mãe ficava doida, que minha mãe ia pra igreja e eu ficava brincando de esconde-esconde, de cobra-cega na minha casa. Eu gostava de andar de bicicleta, tudo isso e eu sempre junto com esse meu irmão. Depois que meus pais voltaram a gente é muito grudado até hoje, a gente tem um amor muito grande um pelo outro. A gente brincava de pega-pega, esconde-esconde, a gente fazia piquenique lá na rua, cada um pegava um pouquinho e ia ali no mercadinho, e comprava um doce pra gente comer, era bem legal.

Eu entrei com seis, sete anos na escola, eu estava na primeira série, agora estou com 16 e estou no segundo colegial e nunca repeti. Eu entrei na creche quando eu morava na Light Ball, como a minha mãe trabalhava, nem sempre dava pra ela me buscar na escola, isso eu me lembro, e aí meus irmãos iam me buscar, eu ficava torcendo pra minha mãe chegar lá na escola e me pegar. Quando eu fui morar aqui na Estrada do Sabão, acho que eu tinha oito anos, eu vim morar pra cá, eu estava na segunda série. Segunda série se é que eu me lembro assim. Na segunda série, eu vim estudar na escola Galdino, terminei, completei, porque lá era apenas até a quarta série e fui estudar no Morro Grande, que é onde eu estou até hoje, desde a quinta série. Eu sempre fui a pé pra escola, desde quando eu era mais nova, ia eu e meu irmão. No começo, minha mãe levava a gente, aí como meu irmão era um ano mais velho que eu, ele era da quarta e eu da terceira, aí a gente ia sozinho e ai voltava sozinho. Quando eu desci pro Morro Grande, na Escola Clodomiro Carneiro, eu sempre fui a pé, nunca fui de perua. Agora como eu estou morando em Pirituba, eu venho de perua, perua normal, de que paga condução e venho a pé, eu tenho que fazer ainda o cartão que paga meia do aluno, ainda não fiz.

Meu pai sempre trabalhou, quando meu pai se separou da minha mãe, era só a minha mãe que trabalhava, meus irmãos, eles participavam do circo escola, que tem lá perto do Penteado, um circo escola que escola que tem lá. Mas depois que meu pai voltou com a minha mãe, que eles se casaram e que tiveram meu irmão de sete anos, só meu pai trabalhou, minha mãe tem problema na coluna, ela não tem condições, às vezes ela limpa uma casinha ali, aqui, mas ela não pode ficar pegando peso, porque ela tem problema na coluna. Agora mesmo, só meu pai que está trabalhando, tem o meu irmão de 17 anos também está trabalhando agora, mais não gosta muito de trabalhar.

Eu entrei com 14 anos no projeto Criança Esperança. Eu ia com o meu irmão, esse irmão de 17. Eu chorava muito quando meu pai e minha mãe estavam separados por causa desse meu irmão, que eu sempre fui muito apegada com ele. E aí, ele ia pro Criança Esperança e eu ia junto, só que ele fazia aula de futebol com a professora Cris e ele parou e eu parei também. Depois de um tempo, eu voltei e fiquei sabendo que estava tendo aula de dança e foi eu e a minha amiga. Minha amiga hoje em dia, ela não mora mais aqui, mas eu continuei e eu vi que tinha aula de dança. Aí eu comecei a fazer aula de dança, me apeguei e fiquei. Dança afro, por exemplo, é meio estranho, mas você vai se acostumando. Eu gosto de samba rock, eu acho legal, assim, não gosto de funk, dançar funk, eu acho que deforma muito a mulher, sabe? Mas um samba rock, um pagode, sambar, eu gosto, isso eu gosto.

Eu fazia aula de dança afro, a gente dançava afro, até combinava um pouco com a minha pessoa, porque eu sou morena eu tinha o cabelo mais cacheadinho. O professor sempre falava: “Keli, você vai se dar muito bem se você continuar”, eu ia começar a fazer com ele novamente ali, perto da matriz que ele está fazendo, eu não sei se ele ainda está, mas há pouco tempo atrás, ele estava, só que como eu arrumei um serviço, o horário acabou não batendo com o outro e não deu. Era de terça e quinta, se eu me lembro. Eu ia a pé, era pertinho de casa, bem pertinho, acho que não tinha nem um metro de distância. Adorava fazer aula de dança, era um lugar legal. Assim que eu fiquei sabendo que tinha aula de dança, eu falei: “Tem que pagar?” “Não”, falei assim” “Então, vamos lá”, aí fui, peguei o papel, levei pros meus pais pra preencher e peguei, levei e comecei fazer. Mas foi muito bom, conheci dança nova, porque dança afro, antes eu nunca tinha dançado, não sabia nem como que era, conheci gente nova, sai, participei dos passeios que tinha, foi muito legal. Eu acho que o Criança Esperança é uma coisa boa pra jovem, pra criança, que não tem muita oportunidade de ter as coisas, de ter mais condições financeiras, porque é gratuito, se tem uma coisa que paga é pouca, é uma coisa bem legal, não é um lugar perigoso, a criança pode ficar lá à vontade, tem aula, quer dizer, é como se fosse Educação Física, tem futebol, tem vôlei, tem dança, tem tudo isso, acho muito legal.

Eu fiquei mais feliz, porque eu sempre gostei de dançar e aí quando apareceu essa oportunidade, eu fiquei mais feliz. Eu chegava da aula de dança, chegava em casa começava a dançar lá, minha mãe ficava olhando dando risada e eu dançando lá, treinando pra apresentação, era muito legal, eu gostava muito. Às vezes, faz até um pouco de falta, quando você acostuma com uma coisa e para, às vezes, faz falta, mas era muito bom. Eu parei porque começou a entrar em construção lá e eu comecei a trabalhar e não deu, o horário não batia, eu trabalhava na gráfica e não dava pra mim. Com 14 anos comecei a trabalhar. Nessa época, eu trabalhei em uma gráfica e em uma loja de roupa. Meu primeiro emprego foi nessa loja, eu tinha 14 anos. Era loja de roupa, é roupa surf, eu arrumava as prateleiras, passava um paninho no chão, fazia venda de roupa, tudo isso. Eu saí dessa loja que era até próxima da minha casa. Aí, eu conheci essa gráfica, que a minha cunhada, ela trabalhava lá, aí perguntei se estava pegando e ela falou que estava, eu falei: “Está pegando, então eu vou lá”. Já que eu não estou fazendo nada, meu estudo não atrapalhando, não tem problema algum, eu fui lá e comecei a trabalhar lá. Aí apareceu a minha tia pedindo pra eu cuidar do Gustavo, porque não tinha ninguém pra ficar com ele, só que era pouco horário, eles iam me pagar e hoje em dia, eu trabalho também e acabou aparecendo a oportunidade em uma pizzaria, eu sou atendente, atendo cliente e atendo o telefone pra anotar pedido, e antes eu trabalhava só final de semana nessa pizzaria, e agora, eu comecei a trabalhar a semana toda assim sabe? Trabalhar direto. Só que é à noite, eu estudo no período da manhã, e à noite, eu trabalho.

Eu estava esperando muito pra ser chamada pra trabalhar direto, porque o menino que me indicou tanto, ele é da minha sala hoje, só que como ele começou o fazer o curso, ele teve que sair, que no caso ele é o sobrinho do dono. E ele saiu e eu estava querendo muito ser chamada, porque querendo ou não, era um dinheiro a mais, então já ajuda. Aí ele me chamou, ele falou até que ia até me registrar, mas ele falou que, no caso, não dava no momento, mas até no final desse ano, ele poderia me registrar. Assim, é bom, sendo nova para ser registrada, acho que já uma coisa boa, não que eu queira ficar na pizzaria pra sempre. Eu quero uma coisa melhor pra mim. Mas é tranquilo lá, eu gosto, me dei bem, sabe? Muito legal.

Olha, quando eu crescer (risos) é porque eu ainda cresço, né? Ah quando eu crescer, eu só quero ter uma vida boa, ter minha casa, quero ter meu serviço, sabe? Penso, a minha faculdade eu ainda não sei. Eu tenho que fazer o que eu gostar e o que der ao meu alcance, mas assim, preferência mesmo, eu não tenho. Antes, eu falava que eu gostaria de ser cantora, quando eu era menor. Eu adorava cantar, porque eu era da mesma igreja que meu pai, e eu cantava lá e o povo da igreja falava: “Você tem uma voz tão bonita”, quando eu sai da igreja, porque eu congrego, mas não na mesma igreja que meu pai. O povo diz: “Você é tão bonita, você tem uma voz tão bonita, Deus te deu esse dom, volta pra igreja”, mas eu gostava de cantar muito. Agora, sou mais tranquila, não penso muito nisso, mas eu gostava de cantar. Vamos esperar mais pra frente, quem sabe um dia. É isso.

Meu maior sonho? Concluir meus estudos, fazer uma boa faculdade, se Deus quiser, ter uma empresa minha ou trabalhar em um serviço bom, poder ter minha casa e poder mostrar para as pessoas, que eu posso conquistar. Eu procuro sempre ser diferente. Apesar que pra você ter um serviço bom, não é apenas tendo um estudo, uma faculdade também porque sem faculdade você não consegue arrumar uma coisa tão boa e a gente tem que procurar sempre crescer, mas pararam assim, porque quiseram mesmo, eu sou a única que estou no segundo, a maioria dos meus irmãos pararam na sétima série, e eu tenho esse de sete anos, que está na segunda série, vamos ver se ele vai até terminar, tomara que vá.




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